Mortes súbitas durante o treino acendem alerta sobre estrutura, preparo e responsabilidade no mundo fitness brasileiro
Uma série de incidentes fatais em academias de diversas capitais brasileiras nos últimos meses tem chocado o país e intensificado o debate sobre a segurança e a saúde dos praticantes de exercícios físicos.
Os casos, majoritariamente relacionados a mal súbito e parada cardíaca, alertam para os perigos da atividade física sem o devido acompanhamento médico e para falhas graves na estrutura de emergência de muitas academias.
🩺 O crescimento das academias e o aumento das fatalidades
O Brasil é o segundo país com mais academias no mundo — mais de 30 mil unidades registradas, segundo o Sebrae e o CREF.
Mas o crescimento rápido não foi acompanhado de uma estrutura técnica compatível com o aumento da intensidade dos treinos e o uso de estimulantes e substâncias ergogênicas.
Especialistas afirmam que o país vive uma epidemia silenciosa de risco cardiovascular, impulsionada pela busca do corpo perfeito, treinos exaustivos e negligência médica.
🗂️ Casos recentes chocam o país
Apenas nas últimas semanas, três mortes foram registradas em dois estados:
Fortaleza (CE) — Em outubro, dois homens, de 40 e 44 anos, morreram em academias da mesma rede com intervalo de uma semana. Ambos sofreram mal súbito durante o treino.
A coincidência levantou questionamentos sobre o acompanhamento médico, a intensidade dos treinos e a ausência de protocolos de emergência eficazes.
Florianópolis (SC) — No dia 21 de outubro, Helizabete Pinheiro, 50 anos, sofreu parada cardíaca fatal enquanto treinava em uma academia da capital catarinense.
Esses casos recentes somam-se a outros incidentes notórios de 2025:
Rio de Janeiro (RJ) — Em maio, Dayane de Jesus, estudante de 22 anos, morreu em uma academia de Copacabana após um mal súbito.
A investigação apontou que o local não possuía desfibrilador portátil (DEA), equipamento obrigatório por lei estadual em academias e centros esportivos, o que pode ter sido decisivo no desfecho.
Bocaina (SP) — Também em maio, Mayara dos Santos, 24 anos, sofreu parada cardiorrespiratória e morreu durante o treino de musculação.
O caso reacendeu o debate sobre o uso de suplementos e pré-treinos com altas doses de cafeína, que podem sobrecarregar o coração de pessoas com doenças cardíacas não diagnosticadas.
Barra Mansa (RJ) — Em setembro, Maria Cristina, 58 anos, faleceu durante o treino na academia Fábrica de Monstros.
Apesar de o local possuir DEA e médicos no momento da ocorrência, as manobras de reanimação não tiveram sucesso.
O caso foi amplamente divulgado nas redes sociais e reforçou o alerta sobre a necessidade de prevenção e exames cardiológicos regulares.
🚨 Falta de estrutura e fiscalização
Embora o CREF exija que profissionais de educação física possuam treinamento básico em primeiros socorros, e muitas leis estaduais determinem que academias tenham DEA disponível, a realidade brasileira ainda é precária.
Estima-se que menos de 30% das academias tenham desfibriladores em pleno funcionamento e menos ainda possuam equipes treinadas para realizar reanimação cardiopulmonar (RCP).
“Toda academia deveria ter, no mínimo, um desfibrilador e um profissional com treinamento em APH básico.
Mas o que vemos são espaços lotados, com alunos sem acompanhamento médico e professores que nunca passaram por uma simulação real de emergência”,
afirma Vanessa Mello, personal trainer e especialista em primeiros socorros.
❤️ O perigo invisível: o coração sem diagnóstico
A morte súbita durante o exercício é, na maioria das vezes, causada por problemas cardíacos não diagnosticados, como arritmias, miocardiopatias ou síndromes genéticas silenciosas.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, ao menos 70% das mortes súbitas em ambientes esportivos poderiam ser evitadas com avaliação médica preventiva.
Exames simples como eletrocardiograma, ecocardiograma e teste ergométrico podem identificar riscos antes que se tornem fatais.
No entanto, poucos alunos realizam check-up antes de iniciar treinos intensos.
⚖️ O que dizem os especialistas
Cardiologistas esportivos alertam que o esforço físico extremo aumenta em até cinco vezes o risco de arritmia fatal em quem tem predisposição.
Médicos do esporte defendem a obrigatoriedade de atestado cardiológico renovado anualmente para todos os alunos de academias.
Professores e gestores de academias pedem incentivos fiscais para aquisição de DEA e capacitação das equipes.
✅ Caminhos para evitar novas tragédias
- DEA obrigatório em todas as academias do país.
- Treinamento anual de RCP e APH para todos os professores e estagiários.
- Check-up médico obrigatório antes de treinos de alta intensidade.
- Fiscalização efetiva dos conselhos regionais e secretarias de saúde.
- Campanhas educativas sobre o uso responsável de estimulantes e anabolizantes.
🕯️ A lição por trás das tragédias
Os recentes casos mostram que a fronteira entre a busca por saúde e o risco à vida pode ser tênue.
Em um país onde o culto ao corpo é crescente, é urgente reforçar a mensagem de que saúde começa pelo coração — não pelos músculos.


