Após uma estreia traumática, o coach transformou a própria frustração em uma filosofia que conecta ciência, performance e vida real. Em entrevista à Muscle Show Magazine, ele explica por que construir um físico deve ampliar as possibilidades de uma pessoa.
Muscle Show Magazine
Manoel Prates precisou ser retirado do palco em sua primeira competição. Era 2015. Depois de uma preparação marcada por restrições alimentares, dois cardios por dia e queda no rendimento dos treinos, o então estreante da Men’s Physique quase desmaiou após a primeira rodada de poses. O sonho de competir terminou em mal-estar e frustração. Nos cinco dias seguintes, segundo seu relato, ganhou cerca de oito quilos.
A experiência poderia ter encerrado sua história no fisiculturismo. Em vez disso, deu origem à pergunta que conduziria sua carreira:
“Não pode ser que essa seja a única forma de competir.”
Hoje, à frente da Consultoria MP, Manoel afirma acompanhar mais de 600 alunos espalhados pelo mundo, além de atletas amadores e profissionais. Sua trajetória inclui preparações para o Mr. Olympia e o Arnold de Ohio, três academias e o projeto de ampliar sua atuação nos Estados Unidos. Mas a dimensão do negócio não explica, sozinha, o que ele pretende construir.
“Existe uma pessoa antes do atleta e antes do cartão profissional”, afirma.
É a partir dessa convicção que o coach organiza sua abordagem: buscar competitividade sem fazer da preparação uma força que consuma trabalho, relacionamentos e identidade.

Alesão que mudou o caminho
Antes dos palcos, havia o futebol. Manoel jogava desde os oito anos e começou a musculação por volta de 2012, buscando força e melhor desempenho em campo. Com 1,80 metro e 65 quilos, também se inspirava no físico dos jogadores de basquete.
Uma ruptura dos ligamentos do joelho, seguida de cirurgia, mudou essa relação. Impedido de continuar jogando, encontrou na musculação um novo centro para sua vida esportiva. Passou a pesquisar treinamento e alimentação, acompanhando referências como Paulo Muzy e, posteriormente, Felipe Franco.
O físico começou a chamar atenção na cidade de aproximadamente 38 mil habitantes onde vivia. Vieram os pedidos de orientação, embora ele ainda não enxergasse ali uma profissão. Inicialmente, escolheu estudar Gestão de Empresas.
Foi a estreia traumática de 2015 que tornou o estudo uma prioridade. Manoel buscou aprofundamento em nutrição, treinamento e fisiologia, cursou pós-graduação e passou pela formação Bodybuilding Coach. Na entrevista, informa também ser formado em Nutrição e Educação Física.
Em 2018, voltou ao palco pela NABBA, conduzindo a própria preparação. Terminou em terceiro lugar, mas o resultado que mais lhe importava estava além da classificação: conseguiu trabalhar, treinar até a última semana e manter-se emocionalmente bem. Nos meses seguintes, relata ter preservado a condição física sem repetir o rebote anterior.
Aquela experiência consolidou a decisão de trabalhar como coach.

O físico é construído antes do cutting
Na metodologia de Manoel, treino, alimentação e tempo precisam responder ao mesmo planejamento. O ponto de partida é o histórico de cada pessoa: rotina, cargas utilizadas, dietas anteriores, evolução e condição emocional.
A partir desse diagnóstico, ele estrutura a periodização e os ajustes individuais. Em vez de trocar exercícios continuamente, defende uma seleção criteriosa de movimentos, volume calculado e progressão de cargas.
“O corpo não precisa de exercícios novos toda semana; precisa de progressão.”
Essa lógica também explica a importância que atribui ao off-season, a fase dedicada à construção muscular. Para um estreante, diz procurar pelo menos seis a oito meses de trabalho antes da preparação específica para competir.
Sua crítica se dirige a um ciclo que considera frequente: competir, sofrer um rebote, gastar meses tentando recuperar a condição anterior e iniciar outra preparação sem desenvolver os pontos fracos.

“O cutting é a revelação do que foi construído”, resume.
Em sua visão, a alimentação precisa sustentar o estímulo do treinamento. O objetivo é criar condições para progredir e recuperar, com estratégias ajustadas à resposta individual. É também por isso que afirma recusar preparações sem prazo adequado ou que, em sua avaliação, exigiriam medidas excessivas.
Segundo Manoel, essas decisões já lhe custaram atletas promissores. Ainda assim, ele as apresenta como um limite do próprio trabalho.
Quando a transformação ultrapassa o palco
A história de Sandra Cabral ajuda a compreender o alcance dessa filosofia. Quando começou a trabalhar com Manoel, há cerca de quatro anos, ela era tímida, atuava em uma indústria e precisou vencer uma grande insegurança para participar da primeira competição.
A evolução física veio acompanhada de outra mudança. Incentivada pelo coach, Sandra cursou Educação Física e passou a atuar como personal trainer em uma de suas academias.
Segundo ele, a atleta saiu de aproximadamente 52 ou 53 quilos em sua estreia para cerca de 60 ou 61 quilos no palco. No caminho, conquistou títulos no Sardinha Classic e no Sul-Brasileiro, ficou em terceiro no Rio Pro e passou a trabalhar em busca do cartão profissional na Wellness.
“O fisiculturismo não lhe deu apenas troféus: mudou sua profissão, sua condição financeira, seus relacionamentos e a maneira como ela se coloca no mundo.”
Manoel faz questão de reconhecer que o mérito dessa transformação pertence a Sandra. Seu papel, diz, foi participar de uma caminhada que produziu consequências duradouras.
Na alta performance, cita também Simara Walter. Conforme relata, a parceria iniciada em 2023 levou a atleta master a seis títulos profissionais na Wellness Masters nos Estados Unidos, à vitória no Toronto Pro e ao vice-campeonato no Masters Olympia da Romênia. Posteriormente, ela terminou em quarto no Masters Olympia do Japão.
Outra experiência destacada é o trabalho com Gisele Machado, iniciado em maio de 2025. Manoel conta que reorganizou treino e dieta, reduziu o volume e priorizou a progressão de cargas. Segundo seu relato, a atleta melhorou a recuperação, passou a comer mais e conquistou, em Buenos Aires, a classificação para o Mr. Olympia, cuja preparação ele acompanhou até outubro daquele ano.
Essas histórias traduzem a proposta que ele quer expandir: formar atletas ao longo do processo e demonstrar, por meio de resultados, o valor do planejamento.

Um físico de atleta sem a obrigação de competir
Embora os campeonatos deem visibilidade ao trabalho, Manoel afirma que a maior parte dos alunos da Consultoria MP busca um físico avançado sem necessariamente subir ao palco.
Esse público inclui mulheres que conciliam trabalho, filhos e uma rotina intensa. Para elas, ele defende treinos estruturados, compatíveis com o tempo disponível, e metas que reconheçam as particularidades individuais.
Seu alerta é contra a permanência indefinida em fases de emagrecimento, sem espaço para desenvolver massa muscular. A construção, argumenta, exige a mesma seriedade dedicada à redução de gordura.
O trabalho com atletas naturais, iniciado em 2022, reforçou essa ênfase em treino, dieta e descanso. Entre os exemplos, cita Rani, wellness de 37 anos que, segundo ele, conquistou títulos overall no Brasil e nos Estados Unidos, incluindo o primeiro Rio Pro Natural.
Manoel também rejeita promessas universais. Na sua avaliação, disciplina e orientação são fundamentais, mas o potencial competitivo depende de características genéticas e anatômicas. Construir um excelente físico e alcançar o topo de uma categoria são objetivos diferentes, que precisam ser tratados com honestidade.
A próxima etapa é internacional

Nos próximos anos, Manoel pretende ampliar sua presença nos Estados Unidos e consolidar o trabalho com treinamento feminino, atendendo naturais, atletas que utilizam hormônios e praticantes avançadas.
Sobre a inteligência artificial, enxerga possibilidades para organizar informações e facilitar processos. Entretanto, considera que a leitura de uma preparação de alto nível ainda exige experiência, julgamento e proximidade humana.
Essa mesma atenção ao indivíduo aparece no conselho que deixa aos leitores: compreender o motivo da transformação antes de perseguir uma colocação ou um físico ideal.
“Se um dia eu não puder mais competir, quem serei?”
A pergunta concentra a mensagem de uma carreira que nasceu de uma experiência difícil e passou a buscar um significado mais amplo para o esporte. Manoel quer formar campeãs, mas também ajudar pessoas a construir uma vida que continue fazendo sentido depois da competição.
“Use o fisiculturismo como uma ponte para construir uma vida maior.”
Instagram: @manoelprates


