Existem treinadores que preparam atletas. Outros formam campeões. E há aqueles que conseguem fazer algo ainda mais difícil: transformar vidas através do esporte.
Em uma entrevista exclusiva à Muscle Show Magazine, um dos treinadores mais experientes do fisiculturismo nacional compartilha sua visão sobre preparação, saúde, disciplina, categorias profissionais, crescimento do esporte e os desafios de conduzir atletas até o palco mais importante do mundo.
Mais do que falar sobre títulos, ele revela a filosofia que construiu ao longo de décadas vivendo intensamente o bodybuilding.
O primeiro músculo que precisa ser treinado é a mente
Quando questionado sobre os pilares que sustentam um atleta vencedor, a resposta veio sem hesitação.
Para ele, o aspecto psicológico está acima de qualquer protocolo de treino ou estratégia nutricional.
“O atleta precisa ter uma mente muito forte para suportar toda a pressão de uma preparação.”
Segundo o treinador, a disciplina exigida pelo fisiculturismo talvez seja a maior entre todas as modalidades esportivas.
Enquanto muitos enxergam apenas algumas horas de treinamento na academia, a realidade é completamente diferente.
Uma preparação competitiva envolve alimentação rigorosa, treinamento, recuperação, qualidade do sono, controle emocional, organização da rotina e decisões corretas durante as 24 horas do dia.
“O palco é consequência. A preparação acontece o tempo inteiro.”
Outro ponto que ele faz questão de destacar é a motivação.
Na sua visão, quem entra no esporte apenas porque ele está em evidência dificilmente permanecerá por muito tempo.
“O atleta precisa amar o processo, não apenas o resultado.”
O maior erro dos atletas não está no treino
Ao contrário do que muitos imaginam, os erros mais frequentes não acontecem na sala de musculação.
Eles acontecem na cozinha.
O treinador afirma que existe um medo generalizado de reduzir carboidratos durante a preparação.
Segundo ele, muitos atletas acabam permanecendo retidos e sem definição por receio de perder massa muscular.
Outro comportamento bastante criticado é o excesso de substituições alimentares nas chamadas dietas flexíveis.
Embora possam funcionar em determinadas situações, quando utilizadas sem critério acabam comprometendo o condicionamento necessário para competir em alto nível.
“O físico é construído principalmente pela dieta.”
Coach não se torna da noite para o dia
Em um momento bastante contundente da entrevista, o treinador aborda um problema crescente no mercado.
Segundo ele, muitos profissionais passam a oferecer consultorias após poucas competições ou simplesmente reproduzem protocolos que receberam.
Sua trajetória foi completamente diferente.
Antes de preparar o primeiro atleta, acumulou aproximadamente 14 anos de experiência competindo.
Além disso, buscou formação acadêmica em Educação Física e Nutrição.
Para ele, conhecimento científico precisa caminhar junto com experiência prática.
“Cuidar da preparação de outra pessoa exige responsabilidade.”
Do sonho improvável à realidade do Brasil
Quem acompanha o fisiculturismo há mais tempo consegue perceber claramente a transformação do esporte.
O treinador iniciou sua caminhada no final da década de 1990, quando o bodybuilding ainda enfrentava preconceitos, pouca estrutura e reduzida visibilidade.
Hoje, ele afirma viver algo que jamais imaginou presenciar.
Ele relembra que, no início dos anos 2000, seria impossível acreditar que um atleta pudesse conquistar uma vaga para o Olympia competindo dentro do Brasil.
Hoje isso faz parte da realidade.
Segundo ele, essa evolução representa uma revolução para o esporte nacional.
“Aquilo que parecia impossível virou rotina.”
Na sua avaliação, ainda existem aspectos que podem evoluir, mas a expansão dos campeonatos para praticamente todos os estados brasileiros democratizou o acesso ao esporte.
Isso permite que novos atletas descubram seu potencial sem precisar percorrer milhares de quilômetros para competir.
Mais do que atletas: pessoas comuns
Embora seja conhecido por formar competidores profissionais, a maior parte de seus alunos não pretende subir aos palcos.
São homens e mulheres em busca de saúde, qualidade de vida e transformação corporal.
Segundo ele, a metodologia utilizada com atletas de elite serve como laboratório para beneficiar pessoas comuns.
Ele compara o processo à Fórmula 1.
As tecnologias são desenvolvidas nos carros de competição e, posteriormente, adaptadas para os veículos de rua.
No fisiculturismo acontece exatamente o mesmo.
As estratégias são testadas no mais alto nível e, posteriormente, individualizadas para pessoas que desejam apenas melhorar sua saúde.
O significado do título mundial
Entre todas as conquistas da carreira, uma ocupa lugar especial.
O título de campeão do Master Olympia Profissional.

Na avaliação do treinador, trata-se de uma das maiores realizações de sua trajetória.
Ele lembra que acompanhava o Olympia desde a adolescência e jamais imaginou um dia conquistar um título dessa dimensão.
Além do valor esportivo, ex/iste o significado simbólico.
Ser reconhecido entre os melhores atletas acima dos 40 anos representa vencer justamente na faixa etária considerada o auge do bodybuilding.
Quando a genética encontra o trabalho duro
Perguntado sobre o que forma um campeão do Olympia, sua resposta equilibra realidade e meritocracia.
A genética continua sendo indispensável.
Entretanto, ela sozinha não garante vitórias.
Disciplina, trabalho diário, consistência, dedicação e preparação adequada continuam sendo fatores decisivos.
“A genética abre portas. O trabalho duro determina até onde o atleta consegue chegar.”
A história que melhor representa sua carreira
Nenhum atleta marcou tanto sua trajetória quanto Renan.
O competidor enfrenta desafios extremamente complexos.
Além da deficiência visual, convive com diabetes e outra condição clínica que exige monitoramento constante da alimentação, uso de insulina, controle rigoroso das proteínas e acompanhamento médico permanente. Cada preparação exige cálculos detalhados para equilibrar desempenho esportivo e segurança clínica.
Mesmo diante dessas dificuldades, o treinador afirma que acompanhar sua evolução é uma das maiores satisfações da carreira.
Mais do que títulos, Renan representa superação.
Sempre que algum atleta reclama da dieta ou do treinamento, ele lembra dessa história.
“Quem conhece a realidade dele percebe que reclamar deixa de fazer sentido.”
Saúde e performance podem caminhar juntas?
O treinador faz questão de separar esporte de alto rendimento e saúde absoluta.
Segundo ele, qualquer modalidade competitiva exige níveis elevados de estresse físico.
Entretanto, acredita que o fisiculturismo praticado com responsabilidade oferece uma das maiores longevidades entre os esportes.
Ele cita exemplos de atletas competindo em alto nível após os 40 e até 50 anos de idade.
Na sua visão, acompanhamento médico, nutricional e treinamento responsável fazem toda a diferença.
Brasil: uma potência mundial
Durante a entrevista, o treinador faz uma afirmação forte.
Para ele, o Brasil já é a segunda maior potência mundial do fisiculturismo e, no esporte amador, pode ser considerado o principal país do planeta.
Segundo sua análise, isso acontece graças ao alto nível técnico dos treinadores brasileiros.
Mesmo trabalhando com menos recursos que outras nações, conseguem formar atletas altamente competitivos.
Ele também acredita que as categorias femininas representam atualmente a maior força do Brasil em competições internacionais, embora ainda recebam menos visibilidade e investimento.
Na sua opinião, a valorização dessas atletas depende também de um maior apoio do próprio público feminino.

O fisiculturismo salva vidas
Muito além das medalhas, o treinador acredita que o bodybuilding transforma pessoas.
Ele relembra casos de atletas que enfrentaram doenças graves, superaram dificuldades financeiras e reconstruíram completamente suas vidas através do esporte.
Para ele, reduzir o fisiculturismo apenas à estética é ignorar seu verdadeiro impacto social.
“Mais do que músculos, o esporte constrói disciplina, autoestima, propósito e oportunidades.”
Conselho para quem sonha competir
Para quem pretende estrear nos palcos, o recado é simples.
Compita por você.
Não para provar algo aos outros.
Não para ganhar curtidas.
Não para alimentar o ego.
Segundo ele, quem entra no esporte motivado pelo processo encontra muito mais satisfação do que quem busca apenas troféus.
Destaques da entrevista
● Psicologia é o principal diferencial dos atletas vencedores.
● Dieta continua sendo o fator mais negligenciado nas preparações.
● Tornar-se treinador exige anos de estudo e experiência.
● O Brasil vive o melhor momento da história do fisiculturismo.
● O país é referência mundial na formação de atletas amadores.
● As categorias femininas precisam de maior valorização.
● Saúde e performance podem coexistir com responsabilidade.
● O fisiculturismo é uma poderosa ferramenta de transformação social.
“O verdadeiro campeão não é aquele que apenas vence no palco. É aquele que vence todos os dias durante o processo.”


