O mercado de suplementos no Brasil movimenta bilhões todos os anos, mas também é marcado por polêmicas, denúncias e uma desconfiança crescente por parte dos consumidores. Entre rótulos enganosos, produtos adulterados e empresas que priorizam marketing em vez de qualidade, a saúde de atletas e praticantes comuns fica em risco.
No meio desse cenário controverso, uma voz se destaca: Felix Bonfim, especialista que há anos denuncia práticas duvidosas, expõe falhas na fiscalização e cobra mais transparência das marcas e instituições. Conhecido por falar sem rodeios, Bonfim não teme apontar erros e trazer à tona discussões que muitos preferem evitar.
Nesta entrevista exclusiva ao Muscleshowmag.com, Felix abre o jogo sobre: Produtos adulterados e falsificados; Empresas e marcas que não passam confiança; O papel questionável de instituições como a Abenutri; O futuro do setor e os riscos para quem consome suplementos sem informação. Prepare-se: essa é uma das entrevistas mais polêmicas sobre este assunto
– Felix, existe ou não um mercado paralelo de suplementos adulterados no Brasil?
– Infelizmente você encontrar suplementos adulterados, com rótulos, informações nutricionais totalmente mentirosas, não é uma exceção. Lamentavelmente isso virou uma regra, porque muitos empresários, muitos bandidos desse setor, possuem a certeza da impunidade. Então você encontra várias marcas que são ofertadas principalmente pelas plataformas digitais.
Precisamos de Leis mais duras para que as plataformas respondam criminalmente, juntamente com as marcas adulteradas e falsificadas, que elas vendem. Caso contrário, fica muito difícil frear essa atitude criminosa.
E como resolver isso? Restringindo a venda no principal centro de distribuição, que são as plataformas digitais e, obviamente, investindo em informação e intensificando fiscalização.
– Que empresas ou produtos você confia?
– Muito difícil fazer um ranking de confiabilidade, porque eu poderia ser injusto com várias empresas citando uma e não citando outra. Mas existem dezenas de marcas confiáveis. Só que infelizmente o público na maioria dos casos, só tem conhecimento de marcas da moda. Existe um grande número de marcas médias e pequenas. que tem qualidade e confiabilidade igual ou até superior a grandes marcas nacionais.

– Muitos marcas investem mais em marketing e influenciadores do que em qualidade. Você concorda?
– Concordo! Claro que sim! Muitas marcas investem mais em marketing e influenciadores do que em qualidade. E isso acontece porque no mundo digital, um influenciador pago, com visibilidade uma apresentação de um produto visualmente desenvolvido que chame atenção, é o primeiro passo para que aquele produto seja comprado. E aí muitas vezes as pessoas acabam comprando o produto com os olhos, sem se preocupar até mesmo em ler as informações nutricionais.
– No mundo dos suplementos, que nota você dá para a Anvisa?
– Sabendo das dificuldades que ela enfrenta, da falta de mão de obra e sabendo que a Anvisa está sucateada, eu dou nota 6.
– Qual é o maior problema do mercado de suplementos brasileiro hoje: fiscalização, ganância das empresas ou falta de informação do público?
– Existe grandes nomes do setor que sabem de todos esses problemas e se calam, porque para eles é vantajoso, é cômodo. Vou dar um exemplo: a própria Brasnutri. Os associados dela, só foram se pronunciar sobre laudos, sobre o programa de auto monitoramento que começou a denunciar várias empresas, porque vários de seus associados tiveram produtos reprovados.
Vários de seus associados foram estiveram no palco da mídia envolvido em escândalos na televisão. Empresas flagradas vendendo fertilizante como suplemento. Empresas flagradas vendendo carbonato de cálcio utilizado para fabricação de plástico como como suplemento. Absurdo total.
Isso é muito sério e basicamente eles se calam. Eles só começaram a atuar no mercado porque viram que a casa deles começou a cair, a ruir. Mas todo mundo sabe que a Integral Médica e a Max Titânio é quem mandam na Brasnutri, inclusive teve uma briga interna entre as duas empresas que paralisou a associação por mais de um ano e meio.
Nesta caso, a associação serve para atender os interesses da Integral Médica e da Max Titânio, e o que sobra vai para os outros associados que fazem parte da Brasnutri.
Os próprios associados sabem que o presidente da Brasnutri é um fantoche, é um pau mandado. Quem manda hoje dentro da Brasnutri é. A Integral Médica e a Max Titânio, e os demais associados simplesmente abaixam a cabeça e seguem o seu cacique ou o seu pajé.
– Já recebeu pressão ou tentativa de censura de empresas por falar verdades incômodas?
– Já recebi muita pressão, já recebi ameaça, já recebi processos.Estou acostumado a responder processos liminares de empresas que não conseguem me calar, que se sentem incomodadas pelas verdades que eu falo, inclusive essa entrevista provavelmente vai me gerar alguns processos com certeza porque eu acho que eu falo verdades incômodas. Já recebi 209 209 processos e vai ser agora que eu vou pararde falar.
– Eu comecei a fazer laudos em 2012, 2013, e tem uma frase que eu sempre falei e sempre vou falar: “você não precisa acreditar naquilo que eu falo, faça você mesmo seus próprios laudos”. E graças a essa fala que uso a quase 15 anos, várias empresas e o público que me segue comprovou a verdade.
Enquanto eu era sozinho, era só uma voz na multidão, muitas empresas olhavam tipo, “ah, ele tá sozinho, ele não tem apoio, a gente não precisa se preocupar com ele”. A partir do momento que eu me tornei coordenador de um programa de auto-monitoramento, que tive apoio de uma associação, que obtive força política, visibilidade e comecei a expor meu trabalho, algumas empresas começaram a se sentir incomodadas. Isso gerou (e ainda gera) uma revolta muito grande. Já passei por muitos maus bocados.
– O público pode confiar 100% nos laudos e nos selos de qualidade?
– Referente aos selos, na verdade só existe um selo de qualidade hoje, que é o selo da PuriSafe é uma empresa privada que foi criada para fazer certificação das empresas de suplemento. Ela analisa as empresas que querem ser analisadas. Eu fui chamado pela PuriSafe para ser consultor técnico deles e fazer a divulgação desses resultados. Então eu posso dizer que eu ajudei a PuriSafe a criar o protocolo que eles utilizam.
Esse protocolo consiste em analisar somente empresas que querem ser analisadas. Quando a empresa aceita ser analisada, ela está assumindo um compromisso com a PuriSafe e com o público consumidor dela de aceitar as normas que a PuriSafe impõe. Entre elas, divulgar o resultado, seja ele qual for.
As análises são feitas três vezes ao ano, onde a empresa que está sendo analisada não sabe quando essas análises vão ser feitas. Os produtos são comprados sempre através de terceiros em plataformas digitais ou revendedores oficiais da marca.
Se ele for reprovado, ele tem que pagar multas altíssimas, e todo o trabalho da PuriSafe é baseada nas normas da própria Anvisa, no que a Anvisa declara de aceitável. No caso de whey, de creatina, de snacks, bebidas proteicas, barras proteicas, as margens, as variações de erro de aprovado e reprovado, a PuriSafe, atende sempre as especificações e as normas da Anvisa.
Ou seja, ela é a primeira e única certificadora de qualidade hoje no Brasil, que faz as análises três vezes durante o ano, lembrando que eles fazem a certificação do produto e não da marca. E já tem grandes nomes aí com mais de 50 empresas que aderiram a PuriSafe e mais de 70 produtos certificados. É um selo, sim, que eu tenho orgulho de dizer que eu ajudei a colocar no mercado e me sinto honrado em ser consultor deles e poder divulgar os resultados do trabalho que eles fazem.
Inclusive está sendo implantado junto a PuriSafe o ISO 17065 que é de extrema importância de imparcialidade. Quem conhece o mercado do suplemento sabe o que significa colocar um ISO 17065 que é reconhecido internacionalmente e após a implantação do ISO vai ser feito também a acreditação junto ao Inmetro.
– O que precisa ser mudado urgentemente no mercado de suplemento brasileiro?
– O ego dos CEOs das marcas que existem no Brasil é uma verdadeira fogueira das vaidades. Eu acho que o ego deveria ser substituído pelo profissionalismo. Isso é o que deveria ser feito assim em primeira mão. Eu acho que deveria ter mais união menos ego, menos vaidade.
As empresas se unirem para fazer um trabalho sério, usar essa união para limpar o mercado, fazer uma verdadeira caça às bruxas, às marcas farinheiras.
Segundo ponto, uma fiscalização seríssima da Anvisa das marcas que são denunciadas, principlamente as que vendem por plataformas digitais.
E principalmente criar uma legislação que seja muito mais rígida com quem vende produto adulterado, com quem vende produto falsificado. Eu classificaria como crime hediondo para eles pensarem duas vezes antes de cometerem o crime.
É muito importante também responsabilizar essas plataformas digitais nas vendas desses produtos porque ela lucra com a venda deles, não se interessando se fazem mal a saúde ou se pidem matar pessoas. Eles querem somente lucros. E se o mercado não tiver uma lei mais rígida, mais específica sobre isso, o Brasil vai virar uma terra sem lei.
– Você acredita que escândalos de adulteração e fraudes podem explodir novamente nos próximos anos?
– Com certeza pode e vai explodir, pode e vai explodir mais escândalos de suplementos aí nos próximos anos, como já vem acontecendo aí regularmente, mas nos próximos anos não. Você sempre vai encontrar algum escândalo aí quase que mensalmente.
– Como o consumidor identifica produtos confiáveis?
– O consumidor pode escolher um suplemento confiável e não ser enganado, se baseando nos laudos da Abenutri. Pode se basear também nos laudos da Purisafe e pode entrar no site do Compare Suplementos, que vai mostrar todas as marcas que foram analisadas. Neste portal ele poderá inclusive fazer comparativo entre as marcas.
– O que ninguém nunca te perguntou, mas você quer responder?
– Por que eu não fiquei rico? Por que eu não fiquei milionário esses anos todos? (Ele ri alto) Com a visibilidade que eu tenho, com o conhecimento que eu tenho, sendo honesto nesse mercado e com o trabalho que eu faço não dá pra ficar milionário.
Dá para ter um bom padrão de vida. Mas ser honesto nesse mercado, causa incômodo. Ser honesto nesse mercado dá medo e é perigoso.
Nunca fiz meu trabalho pensando em ganhar dinheiro me vendendo. Eu deito a cabeça no travesseiro e durmo tranquilo.
- Que situação você acha mais absurda?
O maior absurdo que eu vejo o Brasil vivendo hoje nesse segmento é a prostituição e a venda barata de profissionais da área da saúde, estou me referindo a médicos, nutrólogos e nutricionistas, que indicam suplementos que são falsos, que são engodos, que possuem estudos científicos fakes e montados, que são publicados em revistas como matéria paga. São revistas predatórias na área científica, que muitos profissionais da saúde decentes conhecem, e que aceitam dinheiro para publicarem artigos esdrúxulos, absurdos, mentirosos.
As empresas pagam e eles publicam, como se fosse estudo científico, dando aval para uma farsa.E essa prostituição de profissionais da área da saúde vem crescendo no mercado da suplementação. E o que é pior, nós temos médicos conhecidos que estão se prostituindo, nutricionistas conhecidos que estão se prostituindo, principalmente com um composto chamado PeptStrong. Tem lançamentos de creatina falsas, e falsos produtos milagrosos à base de colágeno que eles divulgam.
O nutrólogo, com o peso de ser médico, com o peso do seu jaleco branco, e os nutricionistas que simplesmente se venderam para as empresas de suplemento para ter altas comissões, jogam a saúde de seus pacientes no ralo. Essa é a realidade. Isso é o maior absurdo que o Brasil vive hoje.


