Uma reflexão necessária sobre uma das práticas mais comuns do esporte
Existe uma cena que se repete todos os anos no fisiculturismo.
O atleta sobe ao palco, cria expectativa, investe tempo, dinheiro, dieta, treinos, suplementação, viagens e meses de preparação. O resultado não vem. Dias depois, surge uma publicação nas redes sociais:
“Encerramos nosso ciclo. Gratidão ao coach pelo trabalho realizado.”
Pouco tempo depois, aparece uma nova postagem:
“Novo projeto. Novo coach. Novo ciclo.”
O fenômeno é tão frequente que já ganhou um apelido nos bastidores do esporte: o “mercado da troca de coaches”.
Mas afinal, por que isso acontece tanto?
E mais importante: a culpa é dos treinadores ou dos atletas?
A resposta, como quase tudo no esporte de alto rendimento, está longe de ser simples.
O fisiculturismo vive uma cultura imediatista
Diferentemente de outros esportes, o fisiculturismo é uma modalidade extremamente subjetiva.
Não existe cronômetro.
Não existe placar.
Não existe gol.
Um atleta pode apresentar seu melhor físico da carreira e mesmo assim terminar fora do Top 5.
Da mesma forma, pode apresentar falhas visíveis e ainda assim vencer dependendo do nível da competição.
Essa subjetividade faz com que muitos atletas tenham dificuldade em aceitar derrotas.
Quando o resultado esperado não acontece, surge a necessidade de encontrar uma explicação.
E quase sempre o primeiro alvo é o coach.
O que leva um atleta a trocar de treinador?
Existem motivos legítimos.
E existem motivos emocionais.
Muitas vezes os dois se misturam.
- Falta de evolução física
Esse talvez seja o motivo mais justo.
Se após várias temporadas o físico não evolui, é natural que o atleta busque novas metodologias, novas estratégias e novos conhecimentos.
Assim como um clube troca de treinador quando os resultados não aparecem, o atleta também tem o direito de buscar outro profissional. - Falhas na comunicação
Muitas rupturas não acontecem por questões técnicas.
Acontecem por relacionamento.
Respostas demoradas.
Falta de atenção.
Pouco acompanhamento.
Dificuldade de acesso ao treinador.
Quando o atleta sente que virou apenas mais um número dentro da equipe, o desgaste começa.- Influência das redes sociais
Hoje o atleta acompanha diariamente dezenas de preparadores exibindo campeões.
É comum surgir a sensação de que “a grama do vizinho é mais verde”.
Um atleta vê um profissional colocando vários atletas no Olympia e começa a acreditar que o problema está exclusivamente no seu treinador.
Nem sempre está.- Busca por status
Existe também o fator marketing.
Alguns atletas acreditam que estar vinculado a um coach famoso aumenta sua visibilidade no mercado.
Em determinados casos isso realmente acontece.
Mas visibilidade não garante títulos.- Dificuldade em lidar com derrotas
Esse talvez seja o motivo mais delicado.
Nem toda derrota é culpa do treinador.
Muitas vezes o atleta simplesmente encontrou adversários melhores.
Ou ainda não possui maturidade muscular suficiente.
Ou não tem genética competitiva para determinados níveis.
Aceitar isso nem sempre é fácil.
E os coaches? Eles também têm razão?
Em muitos casos, sim.
Conversando com preparadores experientes, existe uma reclamação recorrente.
A expectativa irreal criada por alguns atletas.
Muitos chegam acreditando que seis meses de trabalho serão suficientes para transformar um físico comum em um físico profissional.
A realidade não funciona assim.
O fisiculturismo é um esporte de construção.
Existem atletas que levam cinco, oito ou até dez anos para atingir seu potencial máximo.
Nenhum treinador consegue acelerar completamente esse processo.
O problema da terceirização da responsabilidade
Alguns coaches afirmam que muitos atletas entregam toda a responsabilidade de seus resultados ao treinador.
Mas esquecem que o coach não controla:
● Todas as refeições;
● O sono do atleta;
● O estresse diário;
● O consumo de álcool;
● As escapadas da dieta;
● O cardio realizado fora da prescrição;
● A disciplina nos finais de semana.
Quando o resultado não aparece, muitas vezes apenas uma parte da história é contada.
O exemplo do futebol
Curiosamente, o fenômeno não acontece apenas no fisiculturismo.
O futebol vive situação semelhante.
Treinadores são frequentemente demitidos após uma sequência ruim de resultados.
Mas existem exceções.
O maior exemplo recente é o de Abel Ferreira.
Mesmo acumulando derrotas em determinados momentos, ele permaneceu no comando porque a diretoria compreendeu algo fundamental:
Projetos vencedores precisam de continuidade.
Nenhum trabalho é avaliado apenas por uma partida.
O mesmo raciocínio poderia ser aplicado ao fisiculturismo.
O perigo das trocas constantes
Quando um atleta troca de treinador repetidamente, alguns problemas aparecem.
Perda de identidade física
Cada coach possui uma filosofia.
Cada treinador enxerga pontos fortes e fracos de maneira diferente.
Trocas excessivas podem gerar estratégias conflitantes.
Falta de continuidade
Muitas melhorias físicas exigem anos.
Ao interromper um trabalho precocemente, o atleta pode abandonar um processo que estava prestes a dar resultados.
Relação de desconfiança
Quando o histórico mostra inúmeras trocas de treinador, futuros coaches podem ficar receosos de iniciar um trabalho.
Quando a troca faz sentido?
Existem situações em que a mudança é necessária.
● Falta de ética profissional;
● Falta de comunicação;
● Abandono do atleta;
● Estagnação comprovada durante vários ciclos;
● Divergências irreconciliáveis de objetivos;
● Perda de confiança entre as partes.
Sem confiança, não existe parceria.
E sem parceria não existe preparação vencedora.
Como reduzir esse problema?
Especialistas apontam algumas soluções simples.
Metas realistas
Atletas e coaches precisam alinhar expectativas desde o início.
Nem todo atleta ficará profissional.
Nem todo atleta chegará ao Olympia.
E tudo bem.
Avaliação de longo prazo
Um campeonato não define uma carreira.
A evolução deve ser analisada ao longo de anos, não apenas de semanas.
Comunicação transparente
Conversas difíceis precisam acontecer.
Muitas parcerias terminam por falta de diálogo.
Mais educação esportiva
Atletas precisam compreender melhor os processos fisiológicos da construção muscular.
Transformações duradouras levam tempo.
Menos emoção, mais análise
Nem toda derrota exige mudanças radicais.
Às vezes o melhor ajuste não é trocar o treinador.
É corrigir pequenos detalhes dentro do próprio trabalho já existente.
A reflexão que fica
O fisiculturismo vive um paradoxo.
Todos admiram projetos sólidos, construídos ao longo dos anos.
Mas muitos atletas abandonam esses mesmos projetos na primeira grande frustração.
Trocar de coach pode ser a decisão correta.
Mas também pode ser apenas uma tentativa de encontrar um culpado para um resultado que faz parte do processo natural do esporte.
Talvez a pergunta mais importante não seja:
“Quando devo trocar de treinador?”
Mas sim:
“Eu realmente dei tempo suficiente para esse trabalho mostrar resultado?”
Porque no fisiculturismo, assim como na vida, a continuidade muitas vezes vale mais do que a mudança.
E os maiores físicos da história do esporte são a prova disso.


